Este espaço é meu, este espaço é seu, este espaço é de ninguém
- Tassia Botti

- 24 de mar. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 25 de out. de 2024
Nascida em São Paulo, zona norte da capital, área periférica, iniciei minhas percepções sobre o meio urbano ainda na adolescência. Enfrentamento de enchentes, trânsito caótico, poluição do ar, sonora, etc, sempre me deixaram atordoadas. Com o tempo, percebi que precisava me movimentar e agir de alguma forma para melhorar o espaço em que eu vivia. E então, fui fazer arquitetura e urbanismo, e comecei minha jornada profissional na área de urbanismo, mais especificamente com planejamento urbano e territorial ainda no 2° ano da faculdade. Ciente das condições sociais e econômica do meu bairro, passei a olhar os espaços urbanos por um outro ângulo, por uma perspectiva mais humana e que dependia de outras demandas, ainda escassas.

Figura 1: Piscinão, Av. João Paulo I - Bairro Vila Penteado - São Paulo/ SP.
Na faculdade, você enfrenta questões projetuais de diferentes complexidades, desde sistemas estruturais, entendimento sobre geometria, até contextualização da construção no meio urbano e seus impactos negativos. Mas o que nunca pode faltar para que um projeto seja um sucesso é a “afetividade” como ponto de partida. Quem não gosta do lugar onde vive, dificilmente terá a sensibilidade de cuidá-lo e acolhê-lo como seu, como parte da sua vivência e aprendizagem como cidadão responsável.
Assim, passei a enfrentar o dilema entre a mobilidade urbana x infraestrutura e o melhor aproveitamento do espaço público na contribuição da sustentabilidade urbana.
Quantas vezes você já pensou em ir para o trabalho a pé por conta do trânsito pesado? Já quis ser aquele(a) garoto(a) que passava ao lado do ônibus ou do carro, de bike, indo para o trabalho ou para a faculdade feliz da vida? Ou talvez já tenha pensado em ficar em casa mesmo, pegar um atestado médico para não enfrentar o caos urbano e a chuva torrencial que cairá na parte da tarde e que sempre alaga toda a cidade ...

Figura 2: Enchente na Av. João Paulo I no dia 08.01.2017 (Acervo pessoal)
Sabemos que mudar a rotina não depende somente de você. A mobilidade urbana está condicionada às infraestruturas físicas, aos regramentos de trânsito e à segurança, aos meios de transportes alternativos e às gestões que devem promover a longo prazo, a manutenção e inovação de todo esse sistema. Andar, pedalar, patinar, entre outras ações sustentáveis, são além de locomoção, movimento de articulações que consequentemente exercitam seu corpo e o condiciona ao bem-estar e à saúde física e mental.
Em 2017, eu casei e fui morar em Barueri. Da grande e intensa cidade como é São Paulo, para uma vida mais calma, de movimentos mais desacelerados. Confesso que a adaptação foi bem interessante. Com um olhar mais apurado sobre os cenários urbanos, me deparei primeiramente com o excesso de carros na cidade desde o trânsito, até as grandes áreas destinadas às vagas de automóveis em importantes avenidas. Percebi também que a população, culturalmente, já usa o carro para tudo, ou seja, não tem o costume de andar a pé em pequenos percursos, além da cidade receber um grande contingente de cidadãos de outras cidades todos os dias por Barueri servir de passagem entre a cidade de São Paulo e cidades do interior.
Mas as potencialidades de urbanidade existem e podem contribuir com um novo desenho de cidade, amiga dos ciclistas, do pedestre e do meio ambiente.

Figura 3: Av. Henriqueta Mendes Guerra (Acervo pessoal)
Figura 3.1: Foto-montagem Av. Henriqueta Mendes Guerra - Ressurgimento do rio e a inserção de espaços para pedestres e ciclistas. (Projeto em parceria com Arquiteta Camila Kobayakawa)
Atualmente, nas grandes cidades, a busca por mobilidade alternativa tem sido pauta nas discussões em diversos níveis sociais e intelectuais. O transporte tomou importância estratégica no planejamento das cidades quando se torna o instrumento de possibilidades de idas e vindas entre regiões. Sem esses fluxos, a sociedade não permitiria experiências entre povos de diferentes culturas, não haveria a possibilidade de trocas de mercadorias, as conquistas sobre o trabalho/profissão dos sonhos seria limitado, não haveria a coletividade entre regiões, o enriquecimento da diversidade. Não haveria conectividade, nem movimento.
A questão do uso do automóvel como provedor de altas emissões de gases de efeito estufa (GEE), é um dos temas mais debatidos em termos de sustentabilidade, pois intensificam cada vez mais o problema do aquecimento global, contribuindo indiretamente com o aumento de catástrofes ambientais, como enchentes, tempestades, deslizamentos, além dos engarrafamentos por toda a cidade.

Figura 4: Boulevard Entrada da cidade de Barueri (Acervo pessoal)
Figura 4.1: Foto-montagem Av. Henriqueta Mendes Guerra Boulevard - Criação de projeto paisagístico com a água e um sistema integrado à ciclovia. (Projeto em parceria com Arquiteta Camila Kobayakawa)
Neste sentido, a bicicleta vem representando uma das soluções mais sustentáveis e mitigadoras desses impactos ambientais nos últimos tempos, além de contribuir positivamente em termos sociais, com maior facilidade de aquisição do meio de transporte, e economicamente, por não haver gastos com combustíveis, trazendo novos investimentos e um novo mercado ecologicamente correto. A ONU (Organização das Nações Unidas), por exemplo, tem considerado esse meio de transporte o mais eficiente em termos ecológicos, pois ela permite a fuga dos congestionamentos e otimiza o tempo no deslocamento, entre outros aspectos.

Figura 5: Diagrama/ Cortes da Av. Henriqueta Mendes Guerra Boulevard (Projeto em parceria com Arquiteta Camila Kobaykawa)
A bicicleta deixa de ser um meio de lazer e esporte, e torna-se propícia para a locomoção em todos os sentidos. Em âmbito nacional, as cidades como São Paulo, Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro ganham destaque na inovação em sustentabilidade com a implantação de ciclovias.
Mas para que esse cenário se torne possível, há diversos critérios de planejamento e projetos em diferentes escalas urbanas que devem ser traçados e compilados em uma política pública de mobilidade urbana, dentre eles, a infraestrutura sistematizada com outros meios de transporte público; programas de compartilhamento; mobiliário urbano para estacionamento das bikes; regulamentação de regras de trânsito entre ciclistas, pedestres e motoristas; itens de proteção obrigatórios; etc.
Como resultado desse investimento, há criação de valor sobre o planejamento urbano e a aplicação por empresas registradas, a melhoria da saúde coletiva em termos de diminuição de consumo de remédios para certas doenças causadas pelo sedentarismo e pela poluição do ar, o direcionamento do desenho urbano para o conforto térmico no que diz respeito ao passeio público a ciclistas e pedestres, a diminuição de emissões de gases de efeito estufa (GEE) e consequentemente, a contribuição para a diminuição da temperatura na cidade, o maior controle de enchentes por conta da implantação de vegetação, entre muitos benefícios que proporcionarão novos olhares ao espaço público.
E você, o que pode contribuir sobre esse assunto? Deixe seu comentário!!







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